Os últimos afluentes do Paraíba do Sul - CMN - Campos Magazine News

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quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Os últimos afluentes do Paraíba do Sul

 Arthur Soffiati

Nossa cultura nos divorciou da natureza. Ela cultiva em nós o individualismo, o imediatismo e o consumismo. Progressivamente, a cultura ocidental dominou o mundo e retirou das outras culturas a capacidade que elas tinham de olhar para fora da sociedade e enxergar a natureza. Entre povos simples, embora ocidentalizados em algum grau, a natureza ainda é percebida e conhecida. O limite de um indivíduo é ele mesmo. No máximo, sua família, seus amigos, seu município, seu estado, seu país. O mundo já é muito para nós. A natureza praticamente não existe. Essa atitude não se resume àqueles que não têm diplomas universitários. Entre os estudiosos de ciências humanas, a natureza é uma entidade muito distante e ignorada.


Passamos por um rio e não o vemos. Diante de uma planta, não nos interessamos por ela. Frente a um animal silvestre, não o conhecemos. Se se perguntar quais são os últimos afluentes do rio Paraíba do Sul, é provável que a maioria das pessoas não saiba responder. Talvez alguns – muito poucos – respondam que é o Muriaé. Talvez alguém se lembre do rio do Colégio. Anos passados, perguntei a um aluno se ele conhecia o oceano Atlântico. Ele me respondeu que só conhecia a praia de Gruçaí. Perguntei-lhe a diferença entre a água do rio e do mar. Creio que, pensando no rio Paraíba do Sul, respondeu que a do rio é mais barrenta que a do mar.


Oficialmente, os dois últimos afluentes do Paraíba do Sul são, pela margem direita, o rio do Colégio e, pela margem esquerda, o rio Muriaé. Se considerarmos apenas a margem esquerda, seus últimos afluentes são o Pomba e o Muriaé. Existe uma grande dificuldade em diferençar o rio Paraíba do Sul do rio Ururaí. Comumente, pensa-se que o Ururaí é afluente do Paraíba do Sul ou os dois são uma só coisa. Numa planície, os divisores de água praticamente inexistem. Mesmo assim, o Paraíba do Sul é o centro de um sistema hídrico e o Ururaí é parte de outro. Ele deve ser entendido como integrante de um sistema formado pelo rio Imbé, lagoa de Cima, rio Ururaí, Lagoa Feia, rio Macabu e, em passado remoto, pelo rio Iguaçu, que não existe mais. Hoje, o canal da Flecha cumpre o papel do Iguaçu, que se transformou na lagoa do Açu. 


O Paraíba do Sul corre em nível pouco mais elevado que o segundo sistema. Nos transbordamentos, o rio Paraíba do Sul lançava suas águas no segundo sistema, pela margem direita. Porém, nas enchentes do sistema Ururaí, os transbordamentos não alcançam o Paraíba do Sul. Nem nas extraordinárias enchentes de 1966 e de 2008-2009, ocorreu essa comunicação.


No Roteiro dos Sete Capitães, de 1632-34, o mais antigo documento detalhando a planície, de Macaé ao cabo de São Tomé, há uma passagem enigmática: “Aqui disse o Senhor Gonçalo, que se desse ao lago o apelido de Caí, por seu irmão aí cair. – “Pois seja o Caí”, disse o Senhor Castilho, que ia na jangada como piloto do dito Lago do Caí (Trata-se da lagoa do Taí). Seguiu [sic] direito ao rio, que vai desaguar no Rio Paraíba, em razão de ser mãe d’água e lugares permanentes (Na verdade, trata-se de um defluente do Paraíba do Sul que, posteriormente se transformará no canal do Quitingute). Do Rio Paraíba seguiu [sic] a sua margem do sul para nos servir de limites. Caminhamos uma boa distância pela sua margem acima, aonde descobrimos outro rio, da parte do norte, que desaguava no Paraíba (seria o rio Muriaé?); andamos mais para cima; em certa altura paramos. Fazia uma baixa até a margem do Paraíba; deste lugar fizemos menção ao cume das serras”.


Se, na margem direita do rio Paraíba do Sul, os divisores de água só aparecem na estação seca, na margem esquerda, podem-se perceber com mais clareza as altitudes. Ela é mais alta que o nível médio do rio. Quando este enche, as águas avançam, desde eu não encontrem obstáculos, pela margem esquerda até onde naturalmente é possível, dependendo do nível das águas. Elas acabavam detidas em algum ponto. Este podia ser, então, o divisor de águas. Só um relato me informou que era possível navegar, nas cheias extraordinárias, do rio Guaxindiba à margem direita do Paraíba do Sul. Parece história de pescador, pois foi um que me deu esta informação. As águas de cheia subiam pelo córrego da Cataia até a lagoa do Campelo, e pelo brejo de Cacimbas até as imediações da lagoa do Macabu, já em terreno de tabuleiros


  • Cataia


A geógrafa Leidiana Alves demonstrou que a formação da restinga na margem esquerda do Paraíba do Sul bloqueou córregos que desciam da Serra e dos Tabuleiros, criando lagoas alongadas, muitas delas com forma de espinha de peixe. A restinga formou também, próximo ao ponto em que esses córregos desembocavam, antes de 5 mil anos, a lagoa do Campelo, que passou a ser o receptáculo dos antigos córregos. As águas da lagoa, por sua vez, fluíam para o Paraíba do Sul nas vazantes pelo córrego da Cataia. Este seria então o último afluente do Paraíba do Sul, um afluente meio atípico porque as águas do Paraíba do Sul subiam por ele nas cheias. Mas isso não é tão especial. Nas cheias, as águas do Paraíba do Sul sobem o rio Muriaé ou barram o escoamento das águas desse. Consta que, no rio Amazonas, o maior do mundo, as altas marés interferem no escoamento de suas águas até 1.200 quilômetros acima.

Trecho final do córrego da Cataia em tempo de cheia

Caracterizemos, então, este último afluente do Paraíba do Sul num esforço de demonstração. Ele tem várias nascentes correspondentes aos diversos cursos d’água que desciam da Serra e dos Tabuleiros e desembocavam no mar. Barrados pela restinga, eles se transformaram em lagoas alongadas que, mesmo assim, continuaram com o comportamento de rios atípicos cujas águas são colhidas pelo brejo do Mundeuzinho e pela lagoa do Campelo, já na restinga. Dela, parte uma rede de canais naturais, sendo os da Cataia e da Ponte os mais conhecidos. Ambos atingiam o rio Paraíba do Sul, configurando, assim, um afluente sem o aspecto claro deste. 


  • Cacimbas


Mas não encerramos a análise. Se tomarmos o valão da Ponte, veremos que ele se bifurca nas proximidades do Paraíba do Sul. Um braço desemboca no córrego da Cataia como que formando um pequeno delta. O outro se dirige ao brejo de Cacimbas. Examinando este, notaremos que se trata de um longo curso d’água que começa em altitude variando entre 10 e 7 metros. Na outra face, as altitudes começam a cair em direção ao rio Guaxindiba. Ao que consta, naturalmente, as cheias do Paraíba do Sul e do rio Guaxindiba nunca transpuseram esse baixo divisor de águas, mas pesquisas devem ser feitas para averiguar o que se afirma aqui.

Trecho final do Brejo de Cacimbas

Notamos que o brejo de Cacimbas recebia naturalmente águas da lagoa do Macabu, parte de um complexo hídrico de tabuleiro. Assim, o brejo cumpria papel semelhante à lagoa do Campelo. Sem o rigor estabelecido pela hidrologia, a brejo de Cacimbas seria o último afluente do rio Paraíba do Sul, possivelmente, o tributário avistado pelos Sete Capitães. 


  • Macabu-Cacimbas


  Na carta do Brasil, escala 1:50.000, edição de 1968, folha São João da Barra, formulada pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, é possível visualizar com nitidez a articulação entre a lagoa de Macabu e o brejo de Cacimbas. Este havia já sido canalizado na terceira década do século XIX para permitir a navegação em toda a sua extensão (VER ARTIGO MEU). No ano em que a carta do Brasil foi publicada, o canal de drenagem Engenheiro Antonio Resende ainda não havia sido aberto pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento. Nota-se apenas que a ligação entre a lagoa de Macabu e o brejo de Cacimbas parece ter sofrido canalização para facilitar a navegação. Esse canal parece ter se utilizado de uma ligação natural já existente.

Complexo de Macabu e de Cacimbas interligados, assinalando-se o canal de Cacimbas no centro do corpo d’água e o divisor de águas do sistema com o rio Guaxindiba


  • Cataia-Cacimbas


O setor meridional da lagoa do Campelo era ocupado por uma extensa área de banhado, conhecida como brejo ou banhado de Cacimbas. Ela se estendia até a foz do rio Paraíba do Sul e alcançava a sua margem direita, como mostra a citada folha do IBGE. Dois canais naturais drenavam esse imenso banhado: o da Ponte e o de Cacimbas. Ambos se entrecruzavam antes de alcançar a margem esquerda do Paraíba do Sul. Do canal de Cacimbas, partia um defluente que se ligava aos dois canais mencionados, formando uma espécie de delta. Por esta evidência antiga, pode-se concluir que o afluente Cataia comunicava-se com o afluente Cacimbas, unindo-os em seu curso final.

Grande área de banhado no trecho final do Paraíba do Sul, mostrando a articulação entre o córrego da Cataia e o brejo de Cacimbas


  • Campelo-Paraíba do Sul


Não se pode descartar uma ligação direta entre a lagoa do Campelo e o rio Paraíba do Sul. Em passado recente, existia um canal que nascia na extremidade meridional da lagoa quase e alcançava o rio. Tratava-se do canal do Pires, que cortava a lagoa do Arisco e quem bem podia ligar-se ao rio permanentemente ou em tempos de cheia. Assim, o subsistema hídrico formado por lagoas de tabuleiros e pela lagoa do Campelo podiam ser mais um braço do último afluente do Paraíba do Sul. Numa interpretação mais integrada, poderíamos considerar os canais do Pires, da Cataia e da Ponte como três braços de um só afluente. Se os três se misturam no estirão final, mostram-se bem distintos em sua origem.


Nada de estranho em cursos d’água distintos, com divisores de água perfeitamente identificáveis, que, na parte baixa, misturam-se em vários canais, como acontece com os rios Ganges, Bramaputra e Meghna ao desembocarem na baía de Bengala.

Provável ligação direta da lagoa do Campelo com o rio Paraíba do Sul


  • Transformações


Várias obras foram executadas na margem esquerda do rio Paraíba do Sul entre Guarus e a foz do grande rio. A primeira delas foi o aproveitamento do brejo de Cacimbas para a abertura de um canal de navegação na terceira década do século XIX. Trata-se do mais antigo canal do gênero na região. Ele contava com eclusas e foi aberto para o escoamento da produção do antigo Sertão de São João da Barra. Tal escoamento era feito pela ligação natural entre a lagoa do Macabu, que se articulava a outras. O principal produto escoado era madeira proveniente da vasta floresta estacional semidecidual de tabuleiros.


A partir de 1960, extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) executou obras nesse trecho da margem esquerda do Paraíba do Sul que tornaram mais difícil a compreensão da hidrofisionomia entre Guarus e Gargaú, na foz do grande rio. O córrego da Cataia recebeu um sistema de comportas automáticas que se abriam para o Paraíba do Sul com a força das águas provenientes da lagoa do Campelo durante as estiagens e que se fechavam durante as cheias. Assim, esse afluente só tinha fluxo de montante para jusante. Houve alguns protestos dos pescadores da lagoa e o sistema passou a ser feito por comportas manejáveis. 

Bateria de comportas no entroncamento do córrego da Cataia com o rio Paraíba do Sul

Num ponto mais alto que a foz do córrego da Cataia, o DNOS abriu o canal do Vigário ligando o rio Paraíba do Sul à lagoa do Campelo. A diferença de nível entre o rio e a lagoa definiu um fluxo ordinário do primeiro para o segundo. 

Canal do Vigário, entre o rio Paraíba do Sul e a lagoa do Campelo

Na ponta setentrional da lagoa do Campelo, o DNOS abriu o canal Engenheiro Antônio Resende, que, rompendo o divisor de águas, alcançou o rio Guaxindiba e o transformou em seu afluente. O antigo canal de navegação de Cacimbas foi ligado ao Engenheiro Antonio Rezende e se transformou num canal de drenagem.

Canal Engenheiro Antonio Resende com degrau para compensar a diferença de nível entre a lagoa do Campelo e o rio Guaxindiba 

E assim, se não conhecemos de forma elementar a rede hídrica da baixada dos Goytacazes, sequer temos noção do que era essa rede antes das intervenções humanas efetuadas nela.

Visão esquemática dos subsistemas da Cataia e de Cacimbas

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