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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Rios de Portugal – I

 Por Arthur Soffiati


Fiz uma breve enquete no Brasil com pessoas relativamente informadas. Perguntei quais os rios de Portugal elas conheciam. A maioria só conseguiu lembrar do Tejo. Algumas outras mencionaram também o Douro. Em Lisboa, andei sondando quais rios estavam mais em evidência, sobretudo por conta de uma das frequentes crises hídricas que os rondam periodicamente. Os listados pela reportagem são o Minho, o Douro, o Mondego, o Tejo e o Guadiana.


Na minha visita ao norte de Portugal, parti do Tejo e hospedei-me em Coimbra, às margens do rio Mondego. Rumando ao norte, cruzei as desembocaduras no mar dos rios Vouga, Douro, Leça, Ave, Cávado, Neiva, Lima e Minho. O curso final deste último foi usado como fronteira entre Portugal e Galícia, na verdade, entre Portugal e Espanha, já que a Galícia é uma das nacionalidades formadoras da Espanha. Reafirmo que meu conhecimento deles é superficial. Só os conheci no estuário, ponto formado pelo encontro da água doce com a salgada. Acrescentei informações obtidas em pesquisa.

Mapa assinalando os rios examinados neste artigo

Saindo da Galícia, encontra-se o rio Minho (em espanhol e galego, Miño). Tem cerca de 340 quilômetros de extensão. É um rio pequeno perto dos rios considerados pequenos no Brasil. O Paraíba do Sul é três vezes mais comprido que ele. Em sua foz, ergueram-se Guarda, do lado da Espanha, e Caminha, do lado de Portugal. Sua bacia é formada por muitos afluentes nas margens direita e esquerda. No seu curso, também existem 14 ilhas, das quais quatro são internacionais, ou seja, não pertencem a nenhum país. Esse aspecto é fantástico. Eu gostaria de pisar território de ninguém. Não deu tempo.


Pesquisas mostram que o Minho foi o mais piscoso rio da Península Ibérica até meados do século XX. Cerca de três mil pescadores viviam dele. Era pródigo em salmões, sáveis, lampreias, enguias, solhas, bogas, escalos e outros. Tratava-se de uma diversidade famosa. Os pescadores desenvolveram técnicas de pesca que atendiam ao consumo até mesmo no Brasil. Eram pesqueiras, com boitirão e cabaceira, além de algerife no arrasto, estacadas, tresmalho, redes de um pano, chumbeira, nassas, palangres e canas. Contudo, as intervenções antrópicas visando a ocidentalizar a bacia produziram um progressivo declínio da pesca. A bacia sofreu represamentos e foi poluída. A sucessão de barragens criou lagos e impediu a migração de peixes. A navegação por grandes embarcações, que se praticou desde a Idade Média ao século XX, não é mais possível. Os brasileiros conhecem esse drama em seus rios médios e pequenos.


Sua foz conta com banhados excepcionais e está merecendo estudos da Unesco para fins de proteção. Além dos barramentos e da poluição, a introdução da ameijoa asiática produziu desequilíbrios ambientais. 

Visão do rio Minho com ponte moderna

Em latitude mais baixa que a do Minho, desemboca o rio Lima, que tem sua nascente a 975 metros de altitude. É também um rio pequeno se comparado aos pequenos rios do Brasil. Conta com 135 quilômetros de extensão e desemboca no mar. Várias pontes ligam as suas margens. As antigas são lindas em todos os rios de Portugal. Mas, como nos demais, o Lima foi barrado por três represas. Viana do Castelo, uma das mais importantes cidades portuguesas, ergueu-se em sua foz, onde molhes de pedra visam manter a navegação franqueada, pois, nela, constituiu-se um grande complexo portuário.

Rio Lima atravessado por antiga ponte

Em direção ao sul, desemboca no Atlântico o rio Neiva. É também um rio pequeno. Ainda existem muitas florestas em seu vale, que também não é muito urbanizado. A foz conserva um aspecto nativo, embora seculares intervenções humanas tenham sido promovidas nele.

Aspecto sadio do rio Neiva

O rio Cávado nasce a cerca de 1520 metros de altitude e chega ao mar após percorrer 135 quilômetros. É mais um pequeno rio da Península Ibérica. Oito barragens foram construídas no pequenino rio para a geração de energia elétrica. O Cávado é mais um curso d’água domesticado para atender aos interesses de uma economia de mercado. As pontes construídas em suas margens são um mal menor. Algumas têm grande valor histórico, além de serem belas. Sua foz também já foi estabilizada por guias-correntes.

Trecho do rio Cávado em tempos de estiagem, vendo-se baixios

Por sua vez, o rio Ave tem um curso de apenas 85 quilômetros entre a alta nascente e a foz no Atlântico. O canal Campos-Macaé é mais longo que ele. A origem do seu nome é muito discutida. Mas seu estado de degradação é flagrante. Muito poluído por efluentes industriais e domésticos, é considerado um rio morto, embora ainda exista vida nele. No Brasil, nós conhecemos bem essa situação. Vários rios e córregos que foram envolvidos por cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte parecem estar mortos pela poluição. Na foz do Ave, foram construídos guias-correntes. O governo português escolheu industrializar seu curso e matar a atividade pesqueira.

Queda d’água no rio Ave

Em meio a uma praia semideserta, um córrego chega ao mar com dificuldade. Busquei seu nome nos mapas e a informação obtida se aproxima a algo como rio da Igreja. O curso final do riacho não é urbanizado. Um considerável trecho da costa tem o nome oficial de “Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo”. No total, são 380 hectares de área protegida pelo município de Vila do Conde desde 2009.


A reserva protege dunas, rochedos, áreas úmidas e também agrícolas. O cientista Santos Júnior chamou a atenção para a sua importância ecológica na década de 1950, sobretudo pela avifauna. São 81 espécies de aves e 14 das 17 espécies de anfíbios de Portugal. Quanto à flora, ocrrem espécies endêmicas.

O pequeno rio Onda, rico em biodiversidade

Logo abaixo, desemboca no mar o pequenino rio Onda, com apenas 10 quilômetros de comprimento e uma diminuta bacia. 

Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo

Em relação aos rios do Brasil, o Leça é também muito pequeno. Conta com apenas 48 quilômetros de comprimento. Sua extensão corresponde à metade do canal Campos-Macaé. Ele integra uma bacia regularizada para o fornecimento de recursos hídricos. A construção do porto de Leixões, em fins do século XIX, representou um duro golpe para o rio. Mas sua paisagem nativa já vinha sofrendo transformações profundas, com a supressão das matas, a abertura de campos agropastoris e a construção de núcleos urbanos.


O que afetou profundamente o curso final do Leça foi a industrialização. Perduram ainda os lançamentos de efluentes sem o devido tratamento. O trecho entre a foz e a rodovia foi retilinizado (ainda se emprega o verbo retificar para nomear essa operação), alargado e aprofundado para o acesso de navios de grande calado. Um breve olhar sobre a foz me fez lembrar do rio Trapiche, em Búzios, onde a instalação da marina de Búzios desfigurou o pequeno rio. No Leça, foi pior. Além de canalização, alargamento e aprofundamento, a foz foi aparelhada com guias-correntes, a exemplo do canal do estaleiro do Açu, uma verdadeira aberração. Aliás, no porto do Açu foi pior, pois um rio antes inexistente foi aberto.


O rio Leça contraria o processo de revitalização dos rios, em curso na Europa. Ele sofre poluição aguda e crônica, sendo um dos mais poluídos do continente europeu.

Trecho do rio Leça mostrando intensa poluição de suas águas por lançamentos líquidos e lixo

O rio Douro também é problemático. Nascendo a 2.160 metros de altitude, em terras da Espanha, ele tem um curso de 900 quilômetros aproximadamente. É, portanto, mais curto que o rio Paraíba do Sul, mas o terceiro mais extenso da Península Ibérica. O trecho em que ele corre entre pedras é conhecido como arribas. Por mais que existam unidades de conservação, inclusive criadas pela UNESCO, a bacia foi muito desfigurada. Hoje, é mais um rio de valor cultural que natural.


O vale do Douro apresenta forte declividade, com muitos pontos de corredeiras. A engenharia, sempre se considerando onipotente em transformar a natureza, aproveitou-se dessa característica do rio para a geração de energia elétrica por meio de barragens. Na bacia, foram construídas 14 barragens. O rio foi domesticado como um cãozinho e posto a serviço do ser humano. Hoje, ele se parece com uma fila indiana de espermatozoides: um trecho comprido, geralmente com pouca água, e um lago. Eclusas permitem a navegação. E o rio é bastante navegável e navegado.


Contudo, as profundas alterações na bacia afetaram a fauna aquática. O escalo, a enguia e a truta sofreram pesca predatória, além do impacto das barragens. As aves aquáticas ou não ainda conseguem sobreviver nesse ambiente muito alterado. Uma fauna estranha foi introduzida. Restaram fragmentos de matas nativas, que ainda abrigam o veado, o javali, o coelho, o lobo, a raposa, o texugo etc., espécies animais que podem ser caçadas. A caça é um traço cultural inadmissível nos dias de hoje. É como permitir o lançamento de cristãos aos leões.


A bacia do Douro vem sendo muito explorada desde a antiguidade pela pesca, pela agricultura, pela pecuária e pela urbanização. Mesmo com as 14 barragens, ele é navegável. Na foz, onde se ergueu a cidade do Porto, foi construído, com pedras, um sistema de fixação da barra.

Cidade do Porto às margens do rio Douro próxima a sua foz

Ao sul do Douro, encontra-se a lagoa de Paramos. Sua água é salobra por receber a contribuição das valas de Silvade e de Maceda, ao mesmo tempo em que se comunica periodicamente com o mar pela barrinha de Esmoriz. É área rica em flora e fauna nativas.

Área protegida da Barrinha do Esmoriz

Com apenas 150 quilômetros de extensão, o rio Vouga corre inteiramente em território Português.  O que muito me impressionou nele são os extensos banhados existentes em sua foz. Para esses banhados, afluem pequenos rios. Em tempos de cheia, eles devem também funcionar como magníficas áreas de expansão. Além do mais, conhecemos a importância dos banhados para peixes e aves. Apesar da pouca extensão, o Vouga foi represado. Aveiro é a principal cidade que se ergueu em sua margem esquerda.

Aspecto bucólico do rio Vouga escondendo a sua poluição


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