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quinta-feira, 19 de março de 2020

Coronavírus: 'Temos que estar preparados para uma crise de seis meses', diz Witzel

Primeiro a endurecer nas medidas de prevenção à Covid-19, Witzel estuda ainda o corte de transportes de massa e a suspensão de contas de água e outros serviços essenciais por 60 dias
Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
RIO - Um vidro de álcool gel e uma caixa de máscaras estão sobre a mesa do governador do Rio, Wilson Witzel, desde que o surto de coronavírus mudou a rotina do planeta. No Palácio Guanabara, onde despacha, as portas passaram a ficar sempre abertas e reuniões foram transferidas para a área externa. Primeiro a endurecer nas medidas de prevenção à Covid-19, ele afirma que outras, até mais radicais, estão em estudo. A restrição do transporte de massa ao essencial e o confinamento domiciliar, com controle de circulação de pessoas nas ruas usando até QR Code, são algumas delas. Na área econômica, ele analisa a suspensão por 60 dias de cobranças de contas de água, luz, gás e telefonia. Também quer postergar o primeiro pagamento do regime de recuperação — resta saber se o presidente Jair Bolsonaro vai aceitar. "Ninguém está satisfeito com o governo federal", alfineta.

Como o Rio de Janeiro vai lidar com a crise se a situação fiscal do estado mesmo antes do coronavírus já era complicada?
  • O Rio tem duas grandes tragédias do ponto de vista econômico a caminho. Além do coronavírus, a partir de junho a queda do barril do petróleo vai atingir duramente o repasse de participações especiais e royalties. Em junho, já no próximo trimestre. Vamos sofrer severamente com isso.

Este ano o governo teria que pagar R$ 6 bilhões do acordo do Regime de Recuperação fiscal. No atual cenário, o senhor acha isso inviável?
  • Totalmente. Nós governadores estamos pedindo a suspensão do pagamento, por 12 meses, de todas as obrigações dos estados com o governo federal. Não há capacidade de investimento, e a economia está parada. Precisamos de ajuda para resolvermos o problema daqueles que estão ou ficarão desempregados e vão precisar comprar comida. Cheguei a fazer uma demanda inicial de R$ 50 bilhões para o governo federal ajudar todos os estados, mas era apenas uma ideia inicial. Não dá nem para o começo.

Qual o prognóstico para a situação do Rio se não receber ajuda?
  • Com a queda do preço do barril do petróleo, é provável que tenhamos um deficit além dos R$ 10 bilhões já previstos. Pelos nossos cálculos, seriam mais R$ 10 bilhões.

Além de pedir ajuda para a União, os governadores estão dispostos a cortar na própria carne?
  • Sim, a solução tem que ser nacional. O Congresso, os governos federal e estaduais têm que enfrentar juntos essa crise, sem querer fazer política

O senhor pretende cortar remunerações e cargos comissionados se for necessário?
  • Todos os estados terão que tomar medidas de ajuste fiscal. Vamos ter que racionalizar o dinheiro da nação, que não pode ficar represado. Hoje existem R$ 200 bilhões em fundos constitucionais e mais de R$ 300 bilhões em reservas cambiais. Precisamos usar esses recursos senão várias empresas vão quebrar. Não estamos falando de uma crise de 30 dias. Estamos falando de uma crise de seis meses. Os Estados Unidos estão colocando US$ 1 trilhão na economia. Quanto o governo federal vai colocar?

O senhor já tomou algumas medidas para diminuir a circulação de pessoas no Rio. Pensa em outras ainda mais restritivas?
  • É bem provável que tenhamos que cortar os transportes. Somente poderão estar nas ruas pessoas autorizadas. Amanhã (hoje) devo ter mais uma reunião com Metrô e Supervia para debater o tema. Pode ser que haja uma decisão a partir de sexta (amanhã) justamente para evitar que no sábado e no domingo a população queira ir para à praia. Mas acho que já entenderam que a praia não é mais ambiente.

Além de comida, as pessoas precisam pagar as contas...
  • Nós já estamos trabalhando nisso. Os bancos suspenderam por 60 dias o pagamento de boletos e nós devemos também adotar o mesmo caminho. Já pedi para a Cedae avaliar a suspensão por 60 dias. Ela tem dinheiro em caixa para suportar isso. Estamos falando de conta de água, luz, gás e telefone, que hoje também é essencial para a sobrevivência das pessoas. Já os tributos, estou avaliando. Evidentemente alguma coisa vai ter que ser feita. O comércio não vai faturar. Então não vai nem ter o que pagar.

E o impacto no sistema público de saúde?
  • Estamos nos preparando para ter 600 vagas, 300 até 15 de maio. Por enquanto não temos nenhum caso grave e a percepção é de que isso aconteça a partir do fim da semana que vem, quando já teremos algo em torno de cem leitos.

E respiradores?
  • Vamos ter o suficiente dentro das medidas que nós tomamos.

O senhor acha que o sistema público de saúde está preparado?
  • Rede pública nenhuma está pronta para isso. Olha para a Itália, para os EUA... Trump está imaginando 2 milhões e 200 mil mortos. O Ministério da Saúde falou que a preocupação deles é como fazer para enterrar os mortos. Se tivermos um número elevado, vamos ter que fazer um cemitério só para eles.



O Globo

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