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Chuva fora de hora


Por Arthur Soffiati

Não costuma chover forte no mês de junho. Acordei no dia 9 com som de chuva torrencial. Abri a janela para conferir. A rua Edmundo Chagas já estava alagada. Alguns carros se arriscavam a atravessá-la. E a chuva continuou. O alagamento foi aumentando até circundar o edifício Salete, que foi construído no leito da antiga lagoa de João Maria. Ela foi drenada mas não nivelada. Seu fundo foi calçado com paralelepípedo. Existe um piscinão sobre a rua, como se a lagoa fosse empurrada para o subsolo. Não funciona.

Aconteceu alagamento também na descida da ponte Leonel Brizola, primeiro ponto de Campos a ficar inundado quando chove um pouco mais. Ali ficava a portentosa lagoa do Furtado ou Osório. Também ele foi drenada e teve seu fundo impermeabilizado com paralelepípedos e depois com asfalto. Ali não há um inútil piscinão, mas o canal Campos-Macaé passa ao lado. A ponte funciona agora como uma espécie de afluente da lagoa. Quando chove, a água que cai até seu ponto máximo de aclive pelo lado de Campos corre todo para o Camelódromo. Os carros que conseguem passar provoca marolas que agravam a situação dos vendedores. E a prefeitura diz que não pode lançar essa água para o canal porque ele está muito assoreado. Não é essa a questão. O problema é que não há ligação entre a área alagada e o canal. Ali, não é morrer de sede ao lado de uma fonte. É morrer afogado em terra firme. Já foi construído um sistema de drenagem para evitar alagamentos naquele ponto. Além do mais, as obras de embelezamento do canal dificultam a movimentação de uma draga para retirada de entulho.

Descida da ponte Leonel Brizola - antiga lagoa do Osório

Outro ponto tradicional de alagamento fica na rua Rocha Leão. Ali, existia a lagoa do Saco cujo fim foi o mesmo das outras: drenagem com impermeabilização de leito. No ponto, existe um grande piscinão, mas está sempre entupido.  

Nessas chuvas de dois dias, também o Jardim Carioca em Guarus sofreu alagamentos. Que me consta, ali não havia uma lagoa, embora a lagoa do Vigário não fique muito distante. Deve-se considerar que a impermeabilização do solo e o estrangulamento das águas pluviais podem impedir o fluxo das águas para os pontos mais baixos. Ali, o ponto mais baixo é o rio Paraíba do Sul. Tanto o Jardim Carioca quanto Serrinha, distrito de Campos, foram os locais mais afetados. Foram registrados 62.4 mm e 49,8 mm, respectivamente. 

O rio Paraíba do Sul limite dois tipos de terreno distintos. Na margem direita, estende-se a planície aluvial, uma imensa área plana com baixa declividade. Campos está a cerca de dez metros e a praia do Farol de São Thomé está a 0 m. Nela, há depressões pouco profundas que acumulam água de chuvas, de transbordamentos e de afloramento. São as lagoas. Muitas não existem mais. O escoamento das águas pluviais na planície se torna difícil por essa pequena declividade. Ela foi toda recortada por canais. O mais antigo deles, é o canal Campos-Macaé, conhecido como valão. 

Para o engenheiro campista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, ele seria o principal escoadouro das águas de chuva. Inclusive, ele idealizou uma rede de canais urbanos que ajudariam muito a drenar a planície onde se ergue Campos, que tem a seus pés um terreno plano levemente inclinado e de difícil infiltração. Um canal correria pela margem esquerda esgotando as lagoas do Goiabal, Santa Ifigênia e João Maria, jogando a água delas no Campos-Macaé. O segundo correria na margem direita com uma bifurcação. Ele drenaria a lagoa Dourada, perto do Liceu, todo o brejo da Avenida Pelinca e o que restou da lagoa do Osório. Entendeu-se que a obra era cara e que ocupava terras que valia dinheiro para a especulação. A obra acabou não saindo.

Projeto de Saturnino de Brito, formulado na década de 1920, para drenagem urbana de Campos

Campos tem de proteger seus canais. Afora o Campos-Macaé, os demais foram abertos para drenagem de áreas agropecuárias, mas a cidade foi crescendo e envolvendo alguns desses canais. Atualmente, o perímetro urbano da cidade, na margem direita, confina com os canais de Cambaíba e Cacumanga. O de Cacumanga recebe o canal do Saco, que foi aberto para drenar a lagoa do mesmo nome. A cidade cresceu e o envolveu. Ele está sempre entupido por plantas alimentadas por esgoto e por lixo. Tudo acaba no Cacumanga, que se dirige ao rio Ururaí e conduz a sujeira para a lagoa Feia. Em seguida, aparece o canal Campos Macaé, que deveria ser o cartão de visita da cidade. Depois da Chatuba, sai dele o canal de Tocos, que também se dirige à lagoa Feia. Ele ainda recebe água poluída dos canais de São José e do Rosário.

Logo depois do Campos-Macaé, foi  aberto o canal de Coqueiros, que se dirige à baixada, também transportando muitas impurezas. Na outra extremidade da cidade, corre o canal de Cambaíba, que recebe o canal do Goiabal e toda a sua poluição, também conduzida para a baixada.

O alagamento do Jardim Carioca, em Guarus é um sinal de alerta. Essa parte da cidade de Campos, que não fazia parte dela no passado, ergueu-se sobre um terreno de tabuleiros, que se caracteriza por ondulações. Nas partes baixas, é comum a existência de lagoas. Existiam muitas lagoas em Guarus. E lagoas imponentes. Elas funcionavam e ainda funcionam como esponjas ou como piscinões a céu aberto. Mas a urbanização desordenada já fragmentou as lagoas do Vigário e do Cantagalo. Arrasou com a lagoa da Olaria, Cortou um braço da lagoa das Pedras, formando as chamadas lagoínhas de Sapo 2 e 3. Está secando a lagoa Maria do Pilar e devorando a lagoa de Taquaruçu, todas protegidas por lei. Bem rapidamente, a lagoa de Brejo Grande está sendo envolvida pela malha urbana. Em breve, as chuvas mais fortes e torrenciais vão se tornar um problema crescente para Guarus. Nem os canais de Campos nem as lagoas de Guarus têm merecido a atenção por parte do poder público e da população.  

Canais: 1- Cacumanga; 2- Campos-Macaé; 3- Coqueiros; 4- Cambaíba; 5- Saco; 6- Cula; 7- Goiabal; 8- Tocos; 9- São José; 10- Rosário

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