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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O enigma do sistema Ururaí (I)

Por Arthur Soffiati

Com certa segurança, a mais antiga informação sobre o rio Paraíba do Sul, a lagoa Feia, o rio Ururaí e o rio Iguaçu estão no Roteiro dos Sete Capitães (1632-34), documento redigido por um escrivão que acompanhava os sete fidalgos em suas três expedições às terras que pertenceram à Capitania de São Tomé, onde vieram tomar posse de sesmarias que requereram nelas. As terras requeridas a título de sesmarias tinham como limite a foz do rio Iguaçu e a foz do rio Macaé. Os Sete Capitães batizaram acidentes geográficos, assim como Adão batizou a criação de Deus. Mas eles não chegaram a pontos que se situavam na margem esquerda do rio Paraíba do Sul. Por outro lado, conhecer apenas o rio Iguaçu, a lagoa Feia e o rio Ururaí não lhes permitia concluir que os três integravam um único sistema hídrico, incluindo ainda o rio Preto, a lagoa de Cima, os rios Imbé e Urubu e os pequeninos rios que desciam pela vertente atlântica da Serra do Mar.


Os Sete Capitães não puderam conceber um sistema que compreendesse o rio Iguaçu, a lagoa Feia e o rio Ururaí como parte de um sistema hídrico maior. Com exceção do rio Água Preta, que nascia no Paraíba do Sul e que desembocava no rio Iguaçu, por onde eles desceram numa jangada, não lhes foi possível perceber que o Paraíba do Sul corria em plano ligeiramente mais alto que o rio Iguaçu. Eles não tinham condições de concluir que havia uma ligação entre esses dois rios pelo lençol freático.  


O fidalgos tinham os pés sobre uma planície geologicamente nova, cortada por uma infinidade de cursos d’água e povoada de incontáveis lagoas que mostravam seus limites de forma mais definida durante as estiagens e se ligavam, formando um grande pântano na estação das chuvas. Outros informantes estiveram na planície de Campos, mas também não conseguiram entendê-la. André Martins da Palma registra o Paraíba do Sul e a lagoa Feia (1657). Simão de Vasconcelos enfatiza a magnitude da lagoa Feia (1658). No século XVIII, os mapas de autor anônimo (1747), Domingos Capassi (primeira metade do século XVIII), do Sargento-mor Manoel Vieira Leão (1767), de Francisco João Roscio (1777) e a monumental obra cartográfica de Manuel Martins do Couto Reis (1785) avançam pouco a pouco no registro do sistema hídrico, do qual o rio Ururaí é um dos componentes.


A vantagem de Couto Reis sobre os anteriores foi a de ter sido designado para efetuar o levantamento cartográfico do Distrito dos Campos dos Goytacazes pelo vice-rei Luiz de Vasconcelos e Souza entre 1783 e 1785. Além de se deter por mais tempo na ragião, sua tarefa era cartografar e descrever suas particularidades. Além de um detalhado mapa, ele ainda redigiu um relatório fornecendo informações sobre o Distrito. Trata-se de um trabalho minucioso em que ele reconhece os patamares topográficos da região, rios, lagoas, flora e fauna. Suas descrições de rios e lagoas, porém, não parecem mostrar que ele entendeu existir um sistema hídrico complexo formado pelos rios Imbé e Urubu, pela lagoa de Cima, pelo rio Ururaí, pela lagoa Feia e pelo rio Iguaçu.


Ingressamos no século XIX com poucos esclarecimentos sobre o sistema. Os mapas de 1803, 1823, 1830, 1839 e 1840 avançam pouco nos detalhes. Cada um parece copiar o anterior. Mas, a partir de 1840, a cartografia vai detalhando mais tanto a configuração geográfica quanto o processo de urbanização da Capitania/Comarca de Campos dos Goytacazes.


Os documentos escritos pormenorizam mais as caraterísticas dos rios e lagoas formadores do sistema Ururaí, porém jamais são concludentes quanto à unidade complexa que eles constituem. Não mencionarei viajantes como Maximiliano de Wied-Neuwied (1815), Auguste de Saint-Hilaire (1818), Antonio Muniz de Souza (1827-28), Jacob Tschudi (1857), e Charles Ribeirolles (1858), que visitaram a região quando Capitania ou já Comarca, mas conheceram, no máximo, o rio Paraíba do Sul, a lagoa Feia e a lagoa de Cima.


Contudo, Manuel Aires de Casal (1817), embora português, empreendeu uma pesquisa em fontes associada a muitas viagens, descrevendo os corpos d’água formadores do sistema de maneira a quase entendê-lo como um todo. José Carneiro da Silva (1819), escritor da aristocracia rural, residente entre Campos e Macaé, não alcançou o mesmo entendimento de Aires de Casal. Monsenhor Pizarro e Araújo (1823) não passou de plagiador numa época em que o plágio era muito comum.


Em 1837, o minucioso Major Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde trata do mundo natural e da obra humana com primor. Situando o fulcro em Campos, ele chega a Minas Gerais, a Cantagalo e a Cabo Frio, mas não esclarece o sistema Ururaí mais claramente que os autores antecedentes. Com relação à ligação entre o Paraíba do Sul e a lagoa Feia pelo lençol freático, ele endossa as suspeitas de José Carneiro da Silva.


No exaustivo “Dicionário Geográfico, Histórico e Descritivo do Império do Brasil, J.C.R. Milliet de Saint-Adolphe (1863), os integrantes do complexo hídrico de Ururaí aparecem fragmentados, como nos autores mencionados. Ressalve-se, porém, que se trata de um dicionários e que as partes do todo, tendo nomes diferentes, deveriam figurar em verbetes próprios.


Autores da casa, como Fernando José Martins (1868), Augusto de Carvalho (1888), José Alexandre Teixeira de Melo (1886) e Júlio Feydit (1900) nada acrescentam de especial quanto à complexidade do sistema hídrico.


Assim, entramos no século XX, com a intensificação da produção cartográfica. Trata-se agora não apenas de registrar rios e lagoas, mas de estudá-los detalhadamente para canalizá-los e drená-los. Entre a multiplicidade de estudos, hoje em grande parte perdidos, ressaltemos o trabalho de envergadura de Francisco Saturnino Rodrigues de Brito (1929), que confirmou a ligação do rio Paraíba do Sul com a lagoa Feia pelo lençol freático. O relatório de Hildebrando de Araújo Góes (1934) tem o mérito de salvar da destruição informações de comissões de saneamento anteriores à Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense (1933).


Tanto o relatório de Saturnino de Brito quanto o de Hildebrando Góes representam as bases para as obras de dragagem e drenagem executadas no trecho final do Paraíba do Sul, tanto na margem direita (principalmente) quanto na margem esquerda, entre 1935-40 a 1990. A estrutura hídrica original da planície foi profundamente alterada para beneficiar a agropecuária e a indústria sucroalcooleira. 


O sistema Ururaí, em 1688, tinha sido abreviado com a abertura da vala do Furado, ao sul da lagoa Feia. Com o DNOS, a vala do Furado foi substituída pelo canal da Flecha, ligando a lagoa Feia diretamente ao mar. Com essa intervenção, o rio Iguaçu praticamente morreu, transformando-se na lagoa do Açu. 


A ligação entre rio Paraíba do Sul e lagoa Feia pelo lençol freático volta à tona como uma descoberta original no relatório formulado pela Engenharia Gallioli (1969). A essa altura, os dois sistemas estavam unidos por sete canais primários abertos sobre os drenos naturais: Cacumanga, Campos-Macaé (construído no século XIX), Coqueiros, Cambaíba, Saquarema, São Bento e Quitingute. Apenas dois ligam os dois sistemas diretamente: Cacumanga e São Bento. Os demais ou nascem nestes dois ou desembocam neles. Apenas o Cacumanga liga o rio Paraíba do Sul ao rio Ururaí. O de São Bento liga o Paraíba do Sul ao canal da Flecha.  


Um rio – o Preto – importante que integrava o sistema Paraíba do Sul teve seu curso fixado. Ele nasce na Serra do Mar em ponto elevado e tinha foz no rio Paraíba do Sul. Nas cheias, um braço auxiliar escoava suas águas excedentes para o rio Ururaí, como num delta. O DNOS fechou o braço que o ligava ao Paraíba do Sul e fixou o braço auxiliar que o ligava ao sistema Ururaí. Hoje, ele é afluente deste segundo. O ponto mais próximo dos dois sistemas fica exatamente no ponto em que o rio Preto desembocava no Paraíba do Sul. O sistema Paraíba do Sul vertia suas águas de cheias por defluentes por correr em ponto ligeiramente mais alto que o sistema Ururaí. Esses defluentes foram canalizado e controlados por comportas, regulando os fluxos do Paraíba do Sul para o Ururaí. Esse desnível não permite que as cheias do Ururaí alcancem o Paraíba do Sul. Seria necessário que o nível das cheias atingisse nível suficiente para chegar ao grande rio. Talvez, contudo, o único ponto em que as cheias do Ururaí pudessem alcançar o Paraíba do Sul seja o rio Preto.


No fim do século XX e no século XXI, estudos acadêmicos têm sido feitos. No entanto, eles não vislumbram o sistema em sua integralidade. A concentração no estudo de uma árvore, leva os pesquisadores a não enxergar a floresta. Sabe-se o quão difícil é abranger o todo num estudo acadêmico. Pelo menos, o pesquisador poderia esclarecer que estuda apenas uma árvore do bosque. Contudo, parece que os estudiosos não têm consciência do bosque.


Cumpre agora detalhar o progressivo conhecimento do sistema Ururaí em artigos que cubram o período do século XVII ao XXI.

Legenda: em preto, o sistema Paraíba do Sul, mostrando o próprio rio central (1), o rio Preto (2), o rio Muriaé (3) e a lagoa do Campelo (4). Em vermelho o complexo sistema Ururaí, com os rios Imbé (1) e Urubu (2), a lagoa de Cima (3), a variante do rio Preto (4), o rio Ururaí (5), a lagoa Feia (6), o rio Iguaçu (7) e o rio Macabu (8). Em marrom, os defluentes do Paraíba do Sul em direção ao sistema Ururaí: 1- córrego de Cacumanga; 2- córrego do Cula; 3- futuro canal de São Bento e 4- rio Água Preta. BELLEGARDE, Pedro d’Antara e Conrado Jacob de Niemeyer. Nova Carta Corographica da Província do Rio de Janeiro, 1865


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