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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Setembro Amarelo: “É preciso tirar o suicídio de baixo do tapete”

Em entrevista, a psicóloga Mariana Bteshe ressalta o papel da RAPS na prevenção ao suicídio
No mês de conscientização sobre suicídio, conversamos com a psicóloga Mariana Bteshe, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista no tema. Nesta entrevista, ela aborda diferentes faces do problema e aponta o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no atendimento a pessoas em situação de risco e na prevenção de novos casos.

Qual a melhor forma de lidar com esse grande problema de saúde pública, que é o suicídio?

O suicídio é um tema imerso em vários campos do conhecimento. A saúde é uma das formas de olhar para essa experiência, mas não é a única. É preciso uma abordagem intersetorial para dar conta de toda a complexidade que envolve a questão. Um dos maiores desafios ao enfrentamento do problema é que o suicídio ainda é um tabu em nossa sociedade. Houve avanços, principalmente nos últimos cinco anos, quando estreou a série 13 Reasons Why, que deu visibilidade ao tema, sobretudo entre os jovens. Mas muitos mitos e julgamentos ainda cercam o assunto. É preciso avançar nesse aspecto. Alguns estudos mostram que a abertura social para falar sobre os problemas que envolvem o suicídio é fundamental para que as pessoas que vivem essa situação procurem ajuda.

O que pode ser feito no âmbito do SUS?

O suicídio está relacionado a fatores sociais e a disposições orgânico-psíquicas. Além dos protocolos de avaliação de risco e do encaminhamento a unidades especializadas, não podemos nos esquecer de considerar o contexto socioeconômico e as questões familiares e religiosas. É preciso atuar na prevenção dos fatores de risco. Eles não aparecem sozinhos, mas como comorbidades. Por exemplo, depressão, uso de drogas ou bullying. A exposição ao racismo e à homofobia também devem ser pontos de atenção. E não podemos ignorar os determinantes sociais da saúde, como ocupação e renda. Outra questão importante é o treinamento dos profissionais de saúde, que devem estar preparados para lidar com essas situações delicadas. Por isso, é preciso investir na capacitação de quem atua na Atenção Psicossocial e, também, na Atenção Primária. A RAPS também deve estar preparada para atuar prontamente em situações de emergência.

Qual a conduta adequada em casos de tentativa de suicídio?

Independentemente do grau de tentativa, todas devem ser entendidas como um pedido de ajuda. Inclusive episódios de ideação ou planejamento suicida, que muitas vezes são ignorados ou considerados menos graves. Precisamos olhar para esse indivíduo na perspectiva da integralidade e construir, junto com ele, uma estratégia de cuidado. Para isso, precisamos vencer o estigma que ainda recai sobre pessoas que tentam e sobrevivem. Outro aspecto importante é a questão do sigilo. Quando a vida de alguém está em risco, temos que alertar a família.

Quando ocorre um caso de suicídio, como o sistema de saúde deve apoiar os familiares enlutados?

O suicídio - ou tentativa - não é um evento ocorrido no vácuo. No estudo da Suicidologia, quando falamos em sobreviventes, nos referimos às pessoas próximas que foram afetadas pelo suicídio de alguém. Por exemplo, trabalhadores do metrô ou seguranças de prédios altos são vistos como sobreviventes. Estima-se que, em cada caso, dez pessoas são afetadas. São familiares, amigos e colegas de trabalho que podem vir a desenvolver sintomas físicos ou psíquicos. O apoio pode vir pelo SUS, por meio da RAPS, ou por grupos de ajuda mútua.

O que é necessário para aprimorar as ações do sistema de saúde em relação à prevenção do suicídio?

É necessário treinar os profissionais de saúde: os da Atenção Psicossocial; os da Atenção Primária, que estão na porta de entrada do sistema de saúde e precisam saber reconhecer e acolher os casos sensíveis; e também os da Atenção Hospitalar. Por ser um tabu, o suicídio causa perturbação, inclusive entre os profissionais de saúde. Para diminuir o estigma dentro da área da Saúde, é preciso promover a disponibilidade para a ajuda social e a abertura responsável da comunidade para falar sobre o assunto, com os profissionais sendo treinados para saber como ajudar. A notificação é outro desafio. Em 2009, o suicídio entrou no instrumento de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA) e, desde 2014, é um agravo de notificação compulsória. Isso é fundamental para produzir os dados que subsidiarão as políticas públicas de saúde. No entanto, há entraves comuns a todos os sistemas de informação do SUS, que envolvem o atraso na compilação de dados, por exemplo, e questões sensíveis específicas desse tema. Muitas vezes, a própria família pede ao médico que não registre o óbito como suicídio. É uma situação delicada. Uma discussão importante é quem preenche a ficha de notificação e qual o caminho que o instrumento percorre até chegar ao sistema.

Quais os impactos da pandemia de Covid-19 sobre os casos de tentativa e consumação de suicídio?

Percebemos o agravamento de alguns fatores de risco para o suicídio durante o isolamento social, como violência doméstica, consumo excessivo de álcool, desemprego, problemas financeiros, luto e a impossibilidade de se despedir de entes queridos da maneira como gostaria. Todas essas questões, que são determinantes sociais de saúde, ganham relevo no contexto de pandemia. Além disso, muitas pessoas tiveram que interromper seus tratamentos e nem sempre tiveram acesso a um acompanhamento on-line. Tudo isso parece ter contribuído para o aumento de casos de tentativas e atos de suicídio.

Qual a conduta recomendada para meios de comunicação?

Essa é uma discussão complexa. Em 2009 a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um manual para imprensa, mas os veículos de comunicação demoraram para encampá-lo. O Ministério da Saúde fez uma adaptação desse manual, mas, mesmo assim, os grandes jornais demoraram para assimilar as orientações. Com as redes sociais on-line, o desafio se torna ainda maior, porque as pessoas replicam conteúdos que podem ser gatilhos, como cartas de despedidas na íntegra. Divulgar esse tipo de material é ruim, porque não sabemos quem está lendo. Há um benefício grande em tirar o suicídio debaixo do tapete, já que as pessoas se sentem acolhidas e podem procurar ajuda, mas, ao mesmo tempo, há o risco de uma glamourização. Temos que encontrar o equilíbrio.






Secretaria de Saúde do RJ

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