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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A visita de franceses ilustres a Campos

Por Arthur Soffiati

Em 2017, a transnacional francesa EDF - Electricité de France, com o nome fantasia de EDF Norte Fluminense, financiou o luxuoso livro “Uma outra Missão Francesa 1917-1918: Paul Claudel e Darius Milhaud no Brasil”. Para quem não sabe, Claudel era irmão da escultora Camille Claudel, que mereceu um filme, e escritor famoso. Milhaud era músico e compositor tornando-se conhecido como integrante do Grupo dos Seis, ao lado de George Auric, Louis Durey, Arthur Honegger, Francis Poulenc e Germaine Tailleferre. Milhaud transformou-se  num dos mais respeitados compositores do século XX.

Em 1º de fevereiro de 1917, Paul Claudel, ministro plenipotenciário de 2ª classe, foi designado para comandar a legação da França no Brasil. Darius Milhaud veio como seu secretário particular e encarregado de desenvolver ações culturais no Brasil. Em 22 de fevereiro de 1918, Henri Hoppenot foi nomeado secretário no Rio de Janeiro para auxiliar ambos. Sua mulher, Hélène Hoppenot o acompanhou
Darius Milhaud, Nininha Veloso-Guerra e Hélène Hoppenot às margens da lagoa de Cima em 1918. Ao fundo, bois conduzidos por dois cavaleiros. Acervo Ministério da Europa e dos Assuntos Exteriores da França. 

Confesso que adquiri o livro por conta de Darius Milhaud. Quis encontrar alguma relação dele com Mário de Andrade no Brasil, mas encontrei informações mais relacionadas a Campos. O mundo ainda estava assolado pela Primeira Guerra Mundial (1914-18). Milhaud organizou concertos com a finalidade de arrecadar recursos financeiros para a Cruz Vermelha. Um deles ocorreu no Teatro São Salvador, em Campos, no dia 6 de outubro de 1918. O concerto contou com o patrocínio de Ana de Castro Belisário Soares de Sousa, mulher de Nilo Peçanha. 
Teatro São Salvador. Acevo Welliton Rangel

Eu gostaria que os campistas se dessem conta de tal acontecimento: dois escritores franceses, sendo um deles já conceituado internacionalmente, e um compositor que se tornaria famoso quando voltasse à França com muitas influências brasileiras em suas composições eruditas.
Hélène Hoppenot. 
Acervo Ministério da Europa e dos Assuntos Exteriores da França.

Hélène manteve um diário até 1980, contendo muitas informações que não conheceríamos se não fosse seu interesse. É ela que informa: “4 DE OUTUBRO – Partida para Campos, onde Milhaud organizou um concerto de caridade, a fim de socorrer as nossas finanças destinadas à Cruz Vermelha [...] Passeio por Campos. Igreja toda rosa encantadora, com seus coqueiros espaçados e flexíveis; jovens mestiças em vestidos de cores vivas, de cabelos crespos, nos olham passar. Às duas horas, um trem especial nos leva à fábrica de açúcar (o programa imposto é tão preciso quanto aquele de um soberano em viagem). Claudel, incansável, chupando um pedaço de cana de açúcar, pergunta sobre todos os detalhes da produção e do funcionamento da fábrica. O cheiro é enjoativo, e estamos exaustos. Ele escolhe esse momento para nos dizer: ‘Decidi partir logo após o concerto. Quero chegar ao Rio a tempo de ouvir a Nona sinfonia. Protestamos, com exceção de Milhaud, que jamais ousa contradizer Claudel: ‘Voltem quando quiserem’, acrescentou ele, ‘mas eu pego o trem especial... Vocês apenas farão uma viagem doze horas mais longa!’” Sabemos que é inútil protestar quando ele manifesta um desejo, e que nada o faz mudar, mesmo quando ele reconhece o caráter absurdo de seu capricho. Para nos vingarmos, assumimos ares de vítimas resignadas, o que o deixa fora de si.”
Chafariz da Praça das Quatro Jornadas em Campos, 1918. Coleção particular

A personalidade de Claudel não vem ao caso. Notemos as observações anotadas sobre Campos. A Igreja toda rosa e encantadora ornada de coqueiros seria acaso a velha Matriz, na praça do SS Salvador, substituída pela atual? Lembremos que a modernização da produção de açúcar e álcool, em todas as áreas canavieiras do Brasil, começou nas três últimas décadas do século XIX. As fábricas a que se refere Hélène trata-se de uma usina não nomeada por ela. Os engenhos centrais e as usinas eram inteiramente importadas da França e da Inglaterra: estrutura, tijolos, máquinas e até operários para montá-las e técnicos para ensinar a operá-las. Inclusive, alguns grupos franceses e ingleses tornaram-se proprietários dessas fábricas.

O cheiro enjoativo percebido por Hélène não é o do vinhoto, ainda não produzido em larga escala, mas o do caldo. O trem especial mencionado por Claudel deve ser a litorina, que percorria mais velozmente que o trem o trajeto Rio-Campos-Rio.

O livro nada registra sobre o dia 5 de outubro. Não sei se no diário publicado em francês, e não traduzido para o português, figuram as atividades do dia.

Pelo visto, o dia 6 de outubro foi bastante movimentado para os visitantes e para nós, estudiosos e curiosos. Hélène escreve: “Gargarejos. Minha dor de garganta agravou-se. Passeio à beira do rio amarelo e lamacento. Claudel, avistando uma igreja de estilo jesuíta, quer visita-la, e exaspera-se ao ver que está fechada. Impedimos que ele arrombe a porta, e Milhaud, depois de realizar algumas buscas, descobre a mulher que possui a chave.” [nesse ponto do registro, as reticências indicam que o texto foi cortado pelo editor].

Comentando: o rio Paraíba do Sul provavelmente estava cheio e barrento, pois seu volume começa a aumentar na primavera, sobretudo num tempo em que cheias e estiagens eram mais regulares. Não havia ainda a grande transposição para o rio Guandu. A igreja de estilo jesuíta poderia ser a Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens, que se erguia na margem direita do rio e foi demolida depois de destombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional a pedido do prefeito Barcelos Martins. E continuando:

“Recepção síria, chuva de pétalas de rosas. Às quatro horas, partida para a Lagoa de Cima. Árvores centenárias: os galhos de uma desaparecem sob longas cabeleiras chamadas ‘barba de velho’. Diante do prefeito de Campos, Claudel exclama: ‘É como estar na África Central!’. Um carro traz os últimos jornais, e ficamos sabendo que a Alemanha pedira o armistício. É maravilhoso. De alegria, dançamos uma ronda, como crianças. Finalmente, finalmente... essa horrível carnificina vai acabar”.

São poucas as informações sobre a recepção síria. Talvez a chuva de pétalas tenha sido uma homenagem da tradicional colônia sírio-libanesa de Campos. Pelo visto, a viagem à lagoa de Cima já podia ser feita de automóvel, embora a estrada fosse de terra. Ela já era considerada atração turística pela prefeitura de Campos. Nada mudou desde então. Apenas a lagoa, que, de linda, tornou-se alvo de urbanização desordenada e de invasões. As fotos tiradas pela comitiva mostram uma lagoa com margem deserta. Os visitantes estavam em Santa Rita. A lagoa não mais apresentava o aspecto exuberante que encantou Antonio Muniz de Sousa em 1827. Desde então, as atividades econômicas foram carcomendo a paisagem nativa da lagoa. Mesmo assim, ela conservava ainda aspecto encantador em 1918. O trajeto entre Campos e a lagoa era ornado por velhas e enormes árvores, como anota Hélène.
Paul Claudel e Nininha Veloso-Guerra comemorando o fim da Primeira Guerra Mundial às margens da lagoa de Cima, 1918. Acervo Ministério da Europa e dos Assuntos Exteriores da França

Quando da passagem dos franceses por Campos, o município era governado por uma junta formado pelos presidentes da Câmara. João Pache de Faria, Luiz Ferreira Tinoco e Cesar Nascentes Tinoco eram seus nomes. Um deles (seu nome não foi registrado no diário) acompanhou os visitantes à lagoa de Cima e ouviu a comparação de Claudel quanto à paisagem do caminho e a África Central. De fato, nas duas regiões, as florestas tropicais eram luxuriantes.
Paul Claudel e Hélène Hoppenot comemorando o fim da Primeira Guerra Mundial às margens da lagoa de Cima, 1918. Acervo Ministério da Europa e dos Assuntos Exteriores da França

Observação de historiador: O príncipe naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied pousou em Campos no ano de 1815 à frente de sua expedição entre Rio de Janeiro e Salvador. Foi na vila de Campos que ele recebeu a notícia da derrota definitiva de Napoleão. Ainda não havia jornais. Foi então pelo serviço de correio a cavalo que a notícia chegou. Em 1918, a notícia do fim da Primeira Guerra Mundial chegou aos franceses pelos jornais às margens da lagoa de Cima.
Leitura da notícia sobre o fim da Primeira Guerra Mundial por Oswaldo Guerra à beira da lagoa de Cima, 1918. Paulo Claudel, Darius Milhaud e Henri Hoppenot abraçados. Nininha Nininha Veloso-Guerra ao lado, 1918. Arquivo Paul Guerra

Continuando o relato de Hélène: “Às sete horas, fazemos nossa toalete à luz de uma vela, extenuados, sonolentos, mas felizes. Multiplico os gargarejos, pois nessa manhã minha voz estava ruim. Claudel, que soube por Milhaud: ‘Realmente... ela não deveria ter vindo se não pode cantar [...]’”.

“Na sala imensa, decorada de maneira divertida, de estilo colonial, encontram-se em torno de 1.200 espectadores de cabelos crespos, de cores de todas as nuances, do branco cinzento até o negro, passando pelo café com leite. Esses filhos da natureza absorvem sem tédio aparente o programa de música moderna imposto por Milhaud. E tudo se passa bem – mesmo a minha voz volta a ser clara. [...]
Artistas franceses e brasileira festejando o fim da Primeira Guerra Mundial às margens da lagoa de Cima, 1918. Acervo Ministério da Europa e dos Assuntos Exteriores da França

O programa organizado por Darius Milhaud compunha-se da sonata para piano e violino, de Beethoven, três canções, três mazurcas e uma valsa de Chopin; sonata para piano e violino, de Debussy; três poemas de Francis Jammes, compostos por Raymond Bonheur; duas peças para piano de Debussy e “Ma mère L’Oye”, de Ravel. Hélène Hoppenot encarregou-se do canto, o piano ficou por conta de Nininha Velloso Guerra enquanto Milhaud executou violino e piano.
Programa do concerto realizado em Campos no dia 6 de outubro de 1918. 
Acervo Paul Guerra

Pela observação de Hélène, parece haver um olhar de superioridade cultural ao denominar os campistas de ‘filhos da natureza’. É pertinente a observação sobre a diversidade de tons de pele e cabelos crespos. Era comum, naquele tempo, ingressos serem distribuídos gratuitamente para garantir um bom público, ainda que a plateia não se interessasse por música erudita. Afinal, 1200 pessoas formam um público extraordinário para qualquer tempo. O teatro São Salvador, que se erguia na esquina da Treze de Maio com Formosa, era imponente. Foi demolido, como muitos outros prédios de valor cultural indiscutível.

Apenas a segunda parte do programa integrava composições então modernas para Campos. Nininha Velloso Guerra, jovem brasileira que muito impressionou Milhaud por sua facilidade de, à primeira vista, ler partituras e executar piano, integrou-se ao grupo quase que permanentemente.  
Nininha Veloso-Guerra. Revista "O Malho", 1919.


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