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Mangue e humanos IV: Ribeirão Tatagiba (SFI)

Por Arthur Soffiati

Estudando os ambientes naturais do norte e noroeste fluminenses em perspectiva histórica, convenço-me cada vez mais de que a população, os gestores públicos, os órgãos de meio ambiente e os operadores de direito necessitam muito de subsídios de história ambiental ou de ecohistória (como prefiro chamar) para conhecerem melhor os municípios e tomarem decisões menos precipitadas, como está acontecendo com muita frequência.

Tomemos novamente o córrego de Tatagiba, o maior entre os rios Itabapoana e Guaxindiba. Equivale a dizer o terceiro maior a correr no território que hoje é a base ambiental do município de São Francisco de Itabapoana. Em todos os municípios, o desconhecimento é o mesmo. Mas estamos falando de São Francisco de Itabapoana. As pessoas, de modo geral, acreditam que o ambiente geral do município sempre foi o que é. Que todos os córregos -menos o Paraíba do Sul, o Guaxindiba e o Itabapoana - são o que sempre foram: brejos sem nome que passam pelas localidades que lhes dão nomes. Não lhes ocorre que esses brejos foram cursos d’água e que antecedem os núcleos habitacionais. Quase ninguém sabe que o território de São Francisco de Itabapoana era coberto por florestas. A maioria pensa que sempre houve lavouras de cana, abacaxi e mandioca. Os poucos historiadores olham para os lados e só veem pessoas.

Com relação ao Tatagiba, aqueles que fazem pesquisa entendem que o córrego Baixa do Arroz, Tatagiba e Largo, seu antigo nome, não indicam um mesmo curso d’água. Vigora a concepção de que ele não passa de um grande brejo sem nome cuja foz é a vala que liga seu trecho final ao mar. Por mais que se explique a alguém sobre a existência de um rio com foz no mar pouco acima da vala, a explicação não convence. Melhor: não interessa. O descaso é tão grande que eu mesmo acabei duvidando das minhas descobertas. Terá mesmo essa grande massa de água doce a característica de um grande lago alongado que só se conectou ao mar por ação humana? Como córregos menores, a exemplo de Guriri, Buena, Manguinhos e até Barrinha chegam ao mar, ao menos em tempo de enchentes? O mesmo em tempo de estiagem?

Voltemos ao passado por meio de documentos. Assim procedem os historiadores. A maioria deles se contenta com arquivos. Os historiadores ambientais partem de um documento chamado paisagem ou lugar, que sentem mais com os pés que com os olhos. O descaso com documentos é muito grande no Brasil. Eles se perdem com facilidade. Pequena é a produção de documentos. O atual desinteresse pelo ambiente existia ontem e talvez continue amanhã, pelo menos no Brasil. Resta-nos um documento importante: os mapas. 

Não foi necessário recuar tanto no tempo. A Carta Itabapoana, do grande levantamento cartográfico do Brasil feito pelo IBGE em 1968, mostra que a foz do Tatagiba situava-se pouco acima da ponta de Buena e pouco abaixo do local em que a situei há vinte anos. Mostra também, claramente, que as lagoas Salgada e Doce chegavam ao mar. Mostra que o ribeirão de Guriri desemboca na praia outrora conhecida como Mangue, recebendo aporte hídrico de uma lagoa pela margem direita.

Entre Itabapoana e Tatagiba: 1- córrego (lagoa) Salgada; 2- córrego (lagoa) Doce; 3- Foz do ribeirão de Guriri; 4- antiga foz do ribeirão de Tatagiba (hoje barrada). 

A foz do Tatagiba não foi opulenta, como se pode esperar de um curso tão volumosos. Consideremos a descarga de sedimentos em seu leito pelo secular e colossal desmatamento dos tabuleiros. Consideremos as represas que proprietários rurais ergueram nos rios para conservar água em suas terras. Consideremos as estradas municipais e estaduais, que também barraram os rios quase totalmente, instalando apenas, quando muito, manilhas subdimensionadas para a passagem da água de um lado para o outro. 

No caso da foz do Tatagiba, certamente existia nela um manguezal, por menor que fosse. Essa foz deveria ter todas as características de um estuário intertropical. Pela foz do Guriri e de Buena, pode-se assegurar que, pelo menos, encontrava-se ali um pequeno bosque de mangue branco (Laguncularia racemosa). A foz foi fechada pelas atividades de lavra das Indústrias Nucleares do Brasil, pela antiga estrada litorânea do Sertão de São João da Barra e, mais atualmente, pela construção civil.

Ribeirão Tatagiba: 1- Antiga foz, hoje barrada; 2- foz atual, aberta por ação humana

Na vala aberta para lançar ao mar água acumulada pelas chuvas no fechado ribeirão de Tatagiba, começou a se desenvolver um pequeno manguezal na década de 1990. Ele não foi longe por pisoteamento de banhistas. Como, porém, as condições eram favoráveis (água doce a montante, marés a jusante e água salobra no meio), sementes de mangue (propágulos) sempre tentavam colonizar o espaço. 

Mudas de mangue branco, mangue vermelho e siribeira tentando colonizar o novo estuário do Tatagiba. Foto do autor (04/06/1999)

A própria vala criou condições a montante e a jusante para o desenvolvimento de um pequeno bosque de mangue muito misturado com plantas de restinga. A montante, essa mistura é maior. Encontram-se ali rabo-de-galo, algodoeiro-da-praia e inimboi, no meio das quais espécies exclusivas de mangue tentam crescer.

Bosque de mangue na vala de Tatagiba. Bosque de montante. Foto do autor (09/08/2021)

Na jusante da vala, o bosque se desenvolveu mais. Ali, encontra-se o domínio do mangue branco (Laguncularia racemosa) e uma bela população de siribeira (Avicennia germinans). Pelo menos uma semente de mangue vermelho (Rhizophora mangle) foi avistada.

Vala de Tatagiba. Bosque de jusante. Foto do autor (24/07/2021)

Esses bosques são considerados Áreas de Preservação Permanente pelo só efeito do Código Florestal, mas podiam contar com a proteção suplementar da prefeitura de São Francisco de Itabapoana, que poderia cercá-los com tabuletas educativas e com uma ecobarreira para o bosque de jusante a fim de impedir que resíduos sólidos se acumulem nele. Favorecer o desenvolvimento de manguezais é contribuir para o sequestro de dióxido de carbono, um dos gases causadores do efeito-estufa. As plantas de mangue apresentam alta capacidade de absorver esses gases, ainda mais em fase de crescimento.

Semente (propágulo) de mangue vermelho pronto para germinar. Manguezal de Tatagiba. Foto do autor (09/08/2021)


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