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sábado, 25 de janeiro de 2020

O que se sabe sobre a epidemia do novo coronavírus

A epidemia de um novo vírus respiratório surgido na China chamou a atenção de autoridades do mundo todo nas últimas semanas. O novo coronavírus, como é conhecido, apareceu em um mercado da cidade de Wuhan, na China, e se espalhou pelo país, que já registra mais de 1.300 infectados e 41 mortos. Pelo menos outras dez nações, incluindo os Estados Unidos e a França, já registram ocorrências da doença, que, até agora, não chegou ao Brasil.

Os sintomas são parecidos com o de uma gripe: febre, tosse, dificuldade de respirar e falta de fôlego. Mas só os casos de quem passou por Wuhan recentemente ou teve contato com pessoas infectadas são considerados suspeitos pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

A chance de que a doença vire uma pandemia, ou seja, se espalhe pelo mundo, é incerta porque não se sabe em detalhes quão rapidamente o vírus pode se espalhar nem qual seu grau de letalidade. Por enquanto, órgãos internacionais e brasileiros indicam que o risco de uma crise global ainda é baixo.

Desde que as notícias surgiram, também começou a circular uma desinformação segundo a qual a origem da epidemia seria o consumo de sopas de morcego. Embora o mamífero seja vetor de outros vírus da mesma família, não se sabe como se deu a transmissão desse especificamente. Além disso, nenhum pesquisador ou autoridade indicou o consumo de sopa como causa do contágio.

Abaixo, veja o que se sabe até agora sobre o novo coronavírus.

O novo coronavírus e seus sintomas

Corona é uma família de vírus causadores de doenças respiratórias que, vistos em um microscópio, têm pontas que lembram as de uma coroa — daí seu nome. As notícias das últimas semanas se referem a um novo vírus desse grupo, conhecido como 2019-nCoV ou "novo coronavírus", que foi descoberto em 7 de janeiro pelas autoridades chinesas, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Até o ano passado, eram conhecidos seis tipos de coronavírus que poderiam infectar humanos, desde variedades quase inofensivas que causam a gripe comum até as mais graves, como o Sars (Síndrome respiratória aguda grave) e o Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), que mataram centenas de pessoas em epidemias em 2000 e em 2010, respectivamente.

Os sintomas do 2019-nCoV podem incluir febre, tosse forte, falta de fôlego e dificuldade para respirar. Há casos brandos, que se assemelham a um resfriado, e mais severos, que podem causar pneumonia, insuficiência renal e morte. Só são considerados suspeito os casos de pessoas que passaram recentemente por Wuhan ou que tiveram contato com infectados.

O mapa da epidemia

Até este sábado (25), o novo vírus havia infectado pelo menos 1.316 pessoas e matado 41, segundo informações da OMS e da agência de notícias chinesa CTGN.

A maioria das ocorrências (1.297 ou 98,5%) e todas as mortes aconteceram na China. Há também casos confirmados na Austrália, Coreia do Sul, nos Estados Unidos, na França, no Japão, na Malásia, no Nepal, em Singapura, na Tailândia, e no Vietnã.

O novo coronavírus no mundo
Onde foram detectados casos da doença (atualizado em 25.01.2019)
Fontes: John Hopkins University, OMS, CGTN
No Brasil. Não há ocorrências ou casos suspeitos da doença no país, segundo o Ministério da Saúde. A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais chegou a emitir um alerta na quarta-feira (22) de um caso suspeito em Belo Horizonte, mas voltou atrás nesta quinta (23).

A paciente era uma brasileira de 35 anos com "com sintomas respiratórios compatíveis com doença respiratória viral aguda" que havia viajado recentemente a Shangai. Segundo protocolo da OMS, contudo, só são considerados suspeitos casos de pacientes que estiveram em Wuhan, único lugar onde há registros de transmissão ativa do vírus.

Outros casos analisados em São Paulo e no Rio Grande do Sul também foram descartados como suspeitos.

Os riscos de um problema global

A doença foi detectada recentemente e ainda há muito que não se sabe sobre ela, por isso é difícil avaliar quanto dano pode causar e para onde pode se espalhar.

"É possível que esse vírus venha a se disseminar pelo mundo todo, sim, todo vírus respiratório tem esse potencial. Isso vai depender das suas características de mortalidade e de transmissibilidade, que ainda não conhecemos.", diz a infectologista e professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Nancy Bellei.

Por enquanto, autoridades internacionais e do Brasil não consideram que haja risco iminente de uma crise global. O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, decidiu na quinta-feira não declarar o novo coronavírus como uma emergência internacional de saúde. O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), dos EUA, afirmou que está monitorando o problema, mas que considera baixo o risco para o público americano.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o diretor do departamento de doenças transmissíveis do Ministério da Saúde, Julio Croda, disse que, hoje, o risco de a doença afetar o Brasil também é baixo.

Três fatores são levados em conta na avaliação de riscos de epidemias, segundo o CDC:

1. Como e quão rápido o vírus se espalha
Pouco se sabe sobre como o 2019-nCoV é transmitido. Suspeita-se que as primeiras transmissões tenham vindo de animais porque os primeiros pacientes relataram contato com o mercado Huanan, em Wuhan, onde eram comercializados animais vivos e mortos. Mas a OMS confirmou que já houve infecções de humanos para humanos, o que torna a epidemia mais difícil de ser controlada.

Também não se sabe como ou quão facilmente a infecção entre humanos acontece. Segundo o CDC, outros vírus da família corona são transmitidos predominantemente quando há contato próximo com alguém infectado, por meio de gotículas respiratórias (liberadas no espirro e na tosse, por exemplo).

Mas não pode ser descartada a possibilidade de que a transmissão também aconteça por "aerossol", ou seja, por partículas que ficam suspensas no ar mesmo depois que o infectado não está mais presente, o que torna a transmissão possível sem contato com um doente.

2. A gravidade da doença
Também não há certeza sobre a letalidade do novo coronavírus, embora haja indícios de que ele possa ser mais brando que outras epidemias da mesma família, segundo Peter Piot, professor da London School of Hygiene and Tropical Medicine.

A taxa de mortalidade dentro dos casos já diagnosticados, de cerca de 3%, é menor do que de crises como a do Sars (10%) e Mers (34%) e, até agora, a maior parte das vítimas fatais era idosa e/ou tinha outras doenças que podem ter agravado o quadro.

Nesta sexta, porém, um homem de 36 anos infectado com o coronavírus e sem outras condições morreu de pneumonia em um hospital da província de Hubei, segundo informações do governo local.

Em resumo, como a epidemia ainda está em seu início, é cedo para qualquer conclusão definitiva, alerta Bellei, da Unifesp.

3. A disponibilidade de tratamento

Ainda não há vacina ou tratamento específico para o novo coronavírus, segundo a OMS. Pacientes que chegam aos hospitais têm sido tratados com antivirais e de acordo com os sintomas apresentados.

No mundo todo, universidades e laboratórios privados já começam a se dedicar ao desenvolvimento de medicamentos e vacinas. A americana Gilead Sciences, por exemplo, pretende testar a efetividade do Remdesivir, uma droga experimental criada para combater o ebola, enquanto a empresa Vir, também dos EUA, estuda se anticorpos criados para combater outros coronavírus podem funcionar contra este novo, segundo a agência Bloomberg.

Também há iniciativas para desenvolver vacinas em outros laboratórios dos EUA e na Universidade de Queensland, na Austrália, como mostra reportagem do The Wall Street Journal.

O que tem sido feito

Uma série de medidas foi tomada por autoridades da China e da OMS para evitar a disseminação da doença. Uma das primeiras ações foi fechar o mercado Huanan, onde se acredita que a doença começou a se espalhar, para limpeza e desinfecção.

Cientistas chineses também rapidamente fizeram o sequenciamento genético do vírus e disponibilizaram as informações num banco de dados público, o que agiliza a detecção da doença em outros países e as pesquisas de tratamentos e vacinas.

O governo chinês ainda impôs restrições de viagem de e para Wuhan e 12 cidades no entorno, afetando a locomoção de 35 milhões de pessoas, segundo o jornal The New York Times.

Nesta sexta (24), a cidade de Wuhan anunciou um plano de construir em apenas seis dias um hospital de mil leitos para atender pacientes infectados com a doença.

Já a OMS está em contato com os órgãos de saúde dos países afetados e divulga relatórios diários sobre a situação. Também foram publicados guias sobre diagnóstico e tratamento e orientações sobre como diminuir os riscos de transmissão da doença.

No Brasil. O Ministério da Saúde instalou um Centro de Operações de Emergência para acompanhar as notícias sobre a doença e preparar a rede pública de saúde para lidar com eventuais infecções no Brasil. Por enquanto, o COE funciona no nível 1, o menos urgente de uma escala que vai de 1 a 3.

A pasta também divulgou um boletim epidemiológico com orientações de como as unidades de saúde locais devem proceder caso se deparem com casos suspeitos.

Por fim, aeroportos e portos foram notificados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Segundo o órgão, protocolos de limpeza foram reforçados e as equipes desses lugares foram orientadas a notificar rapidamente sobre passageiros possivelmente infectados.

Desinformação nas redes

Circulam nas redes sociais notícias de que a epidemia teria origem no consumo de sopa de morcego no mercado de Wuhan, mas não há evidências de que isso seja verdade.

A desinformação foi publicada por tabloides britânicos como o Daily Mail e o The Sun e, no Brasil, reproduzida pelo jornal Extra. Nenhum dos sites cita a fonte de onde essa informação foi tirada.

É verdade que alguns vírus da mesma família podem ser transmitidos por morcegos e há pelo menos um estudo indicando similaridade genética entre o 2019-nCoV e outros coronavírus que infectam esses animais, como o do Sars.

Mas os pesquisadores suspeitam que o novo vírus combine a carga genética do morcego com a de outro animal, o que pode indicar que haja um outro hospedeiro entre os mamíferos e os humanos. Comparando o 2019-nCoV com um amplo banco de dados genéticos, os pesquisadores chegaram à conclusão que cobras podem ser esse intermediário.

Mas essas ainda são apenas hipóteses que precisam ser testadas, diz Nancy Bellei, da Unifesp. "É preciso realizar experimentos, como a inoculação do coronavírus nessas espécies de cobras para ver se elas permitem a infecção por coronavírus, e fazer um levantamento dos animais do mercado [Huanan, em Wuhan] para determinar se eles estão infectados. Os dados são muito preliminares", diz.

Mesmo que a relação entre o novo coronavírus e os morcegos se comprove, até agora nenhum pesquisador ou órgão oficial apontou o consumo de sopa como possível meio de contágio.


Aos Fatos

Referências:
  • 1. Deutsche Welle
  • 2. OMS 1, 2, 3 e 4
  • 3. CGTN
  • 4. Secretaria de Saúde de MG
  • 5. Twitter (@DrTedros)
  • 6. Folha de S.Paulo
  • 7. CDC
  • 8. London School of Hygiene and Tropical Medicine
  • 9. NPR
  • 10. Governo de Hubei
  • 11. Bloomberg
  • 12. The Wall Street Journal
  • 13. GenBank
  • 14. The New York Times
  • 15. The Guardian
  • 16. Ministério da Saúde 1, 2 e 3
  • 17. Jornal Extra
  • 18. Wiley

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