Chuvas de outono no sistema hídrico Ururaí em 2019 – primeiro balanço - CMN - Campos Magazine News

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Chuvas de outono no sistema hídrico Ururaí em 2019 – primeiro balanço

Por Arthur Soffiati

Até o final de novembro de 2019, as chuvas que caíram sobre a região norte fluminense molharam os campos ressequidos e carentes de umidade, provocaram alagamento em algumas cidades, sobretudo Campos, São Francisco de Itabapoana e Itaperuna, e causaram pequenos transbordamentos no sistema Imbé-lagoa de Cima-Ururaí. Nada aconteceu no sistema Paraíba do Sul que mereça registro, salvo ligeira elevação do nível dos rios principal e tributários. 

A bacia do Paraíba do Sul é muito grande e precisa de muita chuva nas cabeceiras e ao longo dele e de seus afluentes para encher. O segundo sistema, que tem a lagoa Feia como corpo hídrico central, enche e transborda com mais facilidade. As nuvens que se formam sobre o mar e são empurradas pelos ventos para o interior, esbarram na Serra do Mar (Imbé), em sua vertente atlântica, precipitam-se em forma de chuva e escorrem pela superfície de encosta da montanha. O solo logo fica encharcado por carência de vegetação florestal causada pelo desmatamento e pelo avanço de lavouras e pastos. Logo, a água das chuvas desce pelos pequenos rios afluentes do Imbé, dirige-se à lagoa de Cima, flui pelo rio Ururaí e alcança a lagoa Feia.
Sistema formado pelo rio Imbé-lagoa de Cima, rio Ururaí, 
lagoa Feia e canal da Flecha

Os transbordamentos são mais frequentes no sistema Ururaí do que no sistema Paraíba do Sul porque as nascentes do primeiro sistema situam-se em pontos altos e pouco protegidos por florestas. Os rios do sistema são curtos, estreitos e rasos. Daí encherem com facilidade e rapidez. Daí os transbordamentos quase anuais.
RJ-208, na extremidade oriental da Lagoa de Cima em 2018. 
Reprodução Ururau

  Foi o que aconteceu com intensidade no fim de 2008 e princípio de 2009, quando chuvas abundantes causaram uma enchente sem precedentes em todo o sistema. Em 2018, as chuvas se precipitaram em escala menor. Agora, em 2019, apenas alguns casos de transbordamentos são registrados. No rio Mocotó, afluente do Imbé, uma ponte de madeira caiu. No rio Ururaí, a ponte Marimbondo cedeu, mas não desmoronou.
Ponte do Marimbondo. Foto Genilson Pessanha

O rio Preto, afluente do Ururaí, transbordou e arrastou um trecho da rodovia RJ-190, como já aconteceu com algumas estradas da região no passado recente. O nível do rio Macabu também se elevou, mas não causou maiores danos. Aconteceu o mesmo com o rio Ururaí, que alagou algumas casas. A lagoa de Cima também ganhou corpo, com trasbordamentos mais significativos na Lagoinha.
Estrada que liga Itereré a Rio Preto cede com a força da água. 
Paula Vigneron

Da mesma forma, nas proximidades da nascente do rio Ururaí, a lagoa de Cima transbordou e alagou a estrada que começa na Tapera. Tempos atrás, o secretário municipal de obras, Edilson Peixoto, anunciou o asfaltamento dessa estrada. Foi feita uma denúncia anônima ao Ministério Público Estadual de forma bastante imprecisa. Assumi a questão e noticiei ao MPE a intenção da prefeitura. Por um Termo de Ajustamento de Conduta, ficou definido que a estrada, em Área de Preservação Permanente, seria pavimentada com asfalto, assumindo o poder público o risco de vê-la submersa quando de enchentes. É o que em diversos anos vem se verificando, pois a rodovia quase tangencia a margem da lagoa, mesmo em tempos de estiagem. Em 2019, um trecho dela está novamente tomado pelas águas da lagoa.
Alagamento na Estrada RJ-208, entre Tapera e lagoa de Cima
Famílias ainda sofrem com alagamentos em Ururaí
Antônio Leudo

Tanto em 1918 quanto no final de 2019, as chuvas provocaram transbordamentos normais. Nenhum deles foi excepcional como o de 2008-2009. Marília da Silva, uma moradora local, declarou para a imprensa: “Isso já é comum. Todo ano, a lagoa vem. Não vem como veio este ano, mas sempre entra na minha casa. A água está baixando, mas muito pouco. Se estivesse mais rápido, acho que, daqui a uns 15 dias, até dava para voltar (para casa), mas não sei.”
Lagoa de Cima. Foto de Isaías Fernandes

As margens da lagoa de Cima e do rio Ururaí estão ocupadas por lavouras, pastagens e casas de pessoas pobres e ricas. Não se fala nas inundações das lavouras e dos pastos. Quando as águas sobem, não é difícil remover o gado, embora os cultivos sejam perdidos. Quanto às casas, as reclamações partem dos pobres. Os ricos silenciam. Não se sabe se eles também sofrem com as enchentes. Se sofrem, não se manifestam, pois grande parte das residências está dentro das áreas de preservação permanente, segundo o Código Florestal vigente, e das faixas marginais de proteção, segundo definição do Instituto Estadual do Ambiente (INEA) e da Prefeitura de Campos, já que a lagoa de Cima é uma Área de Proteção Ambiental Municipal.
Alagamento em Lagoinha. Paula Vigneron

Por quase ignorarem as superposições de figuras de proteção da lagoa de Cima, os pobres reclamam sem consciência de que suas casas foram construídas em lugar ilegal. Os ricos sabem que sua situação é irregular e preferem se calar por motivos indefensáveis. As águas de cheia, por sua vez, não têm consciência. Não distinguem ricos de pobres, áreas ainda com vegetação nativa, de lavouras, pastos e edificações. Nas enchentes, elas mostram quais são os seus limites. Limites que devem ser respeitados e que integram os ecossistemas lagunar e fluvial.  
Lagoa de Cima. Foto de Isaías Fernandes
 
Fontes consultadas
  • Folha da Manhã. Águas invadem estrada e deixam moradores ilhados na localidade de Lagoinha. Campos dos Goytacazes, 25/11/2019. 
  • Folha da Manhã. Defesa Civil entrega alimentos e água a moradores ilhados. Campos dos Goytacazes, 28 de novembro de 2019.
  • Folha da Manhã. Moradores sofrem com transbordo de Lagoa de Cima e rios da localidade. Campos dos Goytacazes, 27/11/2019.
  • Folha da Manhã. Ponte do Marimbondo volta a ceder por conta das fortes chuvas. Campos dos Goytacazes, 21/11/2019. 
  • Folha da Manhã. Prefeitura presta assistência a 400 pessoas atingidas pelas chuvas. Campos dos Goytacazes, 25/11/2019.
  • Folha da Manhã. Rio Ururaí e Lagoa de Cima transbordam, deixando famílias desalojadas em Campos. Campos dos Goytacazes, 22/11/2019.
  • Folha da Manhã. Rio Ururaí transborda e água atinge casas. Campos dos Goytacazes, 22/11/2019.
  • Folha da Manhã. SFI contabiliza estragos e presta auxílio em locais atingidos por chuva. Campos dos Goytacazes, 22/11/2019.
  • LIMA, Vinícius Santos. Relações sistêmicas na bacia do rio Imbé-Ururaí (RJ) e seus reflexos nas inundações. Universidade Federal Fluminense. Niterói, RJ: 2019 (tese de doutorado).
  • Terceira Via. Lagoa de Cima transborda e invade rodovia. Campos dos Goytacazes, 26 de novembro de 2019.
  • Terceira Via. Nova Ponte do Marimbondo, em Ururaí, desaba nesta madrugada após seis meses de inauguração. Campos dos Goytacazes, 23/11/2019.


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